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segunda-feira, 15 de julho de 2019

CARTA PARA A EU DE TRÊS ANOS ATRÁS

menina,
você tá se tornando uma mulher. 
são tantos sonhos, né?
tanta vontade de fazer diferente.
de se atirar no certo.
como você foi parar na escuridão?
onde foi parar a sua luz?
onde foi parar
você?
eu queria mudar teu caminho nesse dia. você trabalhou tanto o dia inteiro, não vai não. não, não coloca essa tua blusa da Alice, você não vai conseguir usar depois. não, não, fica em casa. por favorzinho. vai não. encontra seus amigos  sim. deixa esse encontro pra lá. eu queria tanto ter te feito ficar em casa. você tava tão cansada... e sem perceber já trocava os amigos pra estar com ele. trocava as noites e aos poucos tuas risadas fáceis. trocava teu bar preferido com a tua melhor amiga; as noites em família. eu queria ter conseguido te fazer ficar em casa. você já ia viajar, pro seu cantinho, pra sua Bahia,pra quê se meter nessa história? nesse enlace? e vai doer. você ainda não sabe... mas toda essa alegria vai acabar. e vai doer tanto que você vai implorar por nunca ter entrado nisso. e durante anos não vai conseguir sair... vai achar que a vida não tem graça sem ele, mas é tão pior com, não é? eu sei. você vai chorar tantas noites sozinha e ninguém vai ver. mas eu te juro, de manhã você vai estar viva. e você precisa estar bem pra viver. você é tão forte e só vai se dar conta disso quando sair disso tudo. você nunca desistiu de você mesma, sabia? mesmo remendada, exausta,perdendo peso, ainda assim, você foi. você trabalhou incansavelmente. você foi pra faculdade e terminou ela. e se eu pudesse mudar uma coisa eu teria te feito não perder sua formatura. vai doer estar sozinha nesse dia. vai perfurar seu coração, mas eu juro, você vai passar por isso também. seu aniversário não será comemorado por anos; você vai dizer que não se importa com essa data, mas vai chorar sozinha novamente. você acha que é fraca, mas foi tua força que te salvou! e por fim, eu queria tanto te embalar no meu colo e te dizer: não, ele não vai se matar. ele não vai fazer mal algum à ele mesmo, mas se você parar pra observar, quem morreu foi você. 

*com esse texto eu desejo que você, mulher,tenha a força necessária pra passar por isso. juntas somos fortes! você vai conseguir, eu juro.

domingo, 26 de julho de 2015

QUERIA EU MORAR NUM ABRAÇO

Estávamos numa festa, olhei-o; percebi que o mesmo já me encarava, virei-me sem graça. Voltei a olhá-lo, ele percebeu e como numa fração de segundos virou-se em minha direção, sorrimos antes que desse tempo de uma segunda virada de cabeça. Aquele momento implorava por uma troca maior que apenas olhares, meu pensamento insistia em querer conhecer mais a fundo aquele que tanto me intrigava, e eu não sabia nem mesmo seu nome.

Essa noite poderia terminar de três diferentes formas:
1. Em arrependimento! Sorrio e saio de fininho;
2. Num beijo e possível troca de números do WhatsApp;
3. Num quarto, longe dali.

Mas jamais terminaria:
1. Num abraço.

Abraço é muito démodé. A graça é conhecer rápido, falar pouco e beijar muito. Raramente uma troca de mensagens no dia seguinte. A graça é sentarmos numa mesa e ao invés de trocarmos histórias e gargalhadas, trocarmos wifi nos iludindo estarmos "juntos". Abraço, quê é isso mesmo?

Beijo é bom, não disse o contrário. É calor, conexão, encontro, intimidade. Mas não há nada mais íntimo que poder dar-se num abraço. Queria eu morar num abraço! Viver dentro do refúgio que é abrigar-se em alguém. Abraço é encontro de alma e espírito, é deparar-se com o coração do outro; é casa pra se morar.

E quando encontramos essa casa, kitnets já não nos satisfazem mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

NO ÔNIBUS

Lá estava eu, sentada no banco do ônibus enquanto viajava pra longe com a música que destrinchava meus tímpanos de tão alta. Meus pensamentos se anexavam a batida da música. Cachorro, faculdade - parada rápida pra tocar a bateria imaginária junto ao som de Led Zeppelin -, trabalho, provas, curso de inglês na quarta e o chopp com a galera no sábado.

Em meio a lista flutuante e imaginária que criava, olhava de rabo de olho para quem entrava ou saía do ônibus, não por medo, apenas para saber se algum "vovô" ou "doninha" entrariam e precisariam de meu assento.

Até que entre uma dessas rápidas olhadas, voltei-me rapidamente a pessoa em que avistei. Sorri ao vê-lo sorrindo feliz para um bebê que estava no colo de sua mãe e foi isso que me chamou atenção no mesmo. Ele sentiu o olhar e virou-se pra mim rapidamente, fazendo-me não ter tempo de voltar meu olhar. Então encarei. Sem graça, me virei. Mas continuava incomodada, era como um imã que fazia voltar meus olhos à ele e sutilmente ele voltava os seus à mim.

Comecei a prestar mais atenção nele. De terno, claramente um executivo -o que me fazia perguntar a mim mesma o por quê de estar andando em transporte público tão elegante daquela forma-, com um sorriso belíssimo que transparecia ingenuidade apesar da idade. E que idade! Era mais velho. E isso não me incomodava nem um pouco, pelo contrário, até me instigava.

E fiquei ali, imaginando como seria se ao invés de em pé ele sentasse no banco ao lado e puxasse papo: será que era um cara tão interessante quanto aparentava de longe?

E no meio de todos esses pensamentos: - trriiiiiimm! - alguém tocou a campainha do ônibus. Era ele. Antes de descer, virou-se em minha direção e me encarou como quem dizia "até logo", retribuí com um sorriso.

Até hoje não sei o tom de sua voz, ou seu nome, ou o que faz da vida... Sei apenas aquilo que minha imaginação criou. A única certeza que carrego é que gosta de crianças e que é dono de um sorriso hipnotizante. 

Até prefiro esse desfecho. Afinal, melhor que ele permaneça em minha memória como alguém que em pouco menos de 20 minutos me fez lembrá-lo por anos ao invés de alguém que pude ter durante anos e queria que fosse apenas por 20 minutos.