terça-feira, 9 de agosto de 2016

HE

(nan)
Ele que surgiu como quem ressurge das cinzas.
Pessoa que em nada me acrescentava e hoje tanto me soma.
No pouco.
Nas entrelinhas.
Eu que nunca liguei pro extraordinário, vi nele o ordinário perfeito.
O mar que em mim se torna turbilhão de sentimentos,
Me faz imaginá-lo como um oceano sem fim.
Vi nele pretensão alguma,
Que causou total efeito em mim.
Naqueles olhinhos pequenos, enxerguei uma imensidão em Pessoa.
Em conversas aleatórias, me vi presa.
A sintonia era inimaginável e os gostos se complementavam.
Em casca me fiz dura, enquanto por dentro derretia.
E aos poucos transparecia.
Fugi como diabo foge da Cruz.
Amar não, amor não é pra mim.
Não mais.
Nem um pouquinho, nem um montão.
Em vão.
Todo lugar que olhava,
O via, encarando a mim.

domingo, 26 de julho de 2015

QUERIA EU MORAR NUM ABRAÇO

Estávamos numa festa, olhei-o; percebi que o mesmo já me encarava, virei-me sem graça. Voltei a olhá-lo, ele percebeu e como numa fração de segundos virou-se em minha direção, sorrimos antes que desse tempo de uma segunda virada de cabeça. Aquele momento implorava por uma troca maior que apenas olhares, meu pensamento insistia em querer conhecer mais a fundo aquele que tanto me intrigava, e eu não sabia nem mesmo seu nome.

Essa noite poderia terminar de três diferentes formas:
1. Em arrependimento! Sorrio e saio de fininho;
2. Num beijo e possível troca de números do WhatsApp;
3. Num quarto, longe dali.

Mas jamais terminaria:
1. Num abraço.

Abraço é muito démodé. A graça é conhecer rápido, falar pouco e beijar muito. Raramente uma troca de mensagens no dia seguinte. A graça é sentarmos numa mesa e ao invés de trocarmos histórias e gargalhadas, trocarmos wifi nos iludindo estarmos "juntos". Abraço, quê é isso mesmo?

Beijo é bom, não disse o contrário. É calor, conexão, encontro, intimidade. Mas não há nada mais íntimo que poder dar-se num abraço. Queria eu morar num abraço! Viver dentro do refúgio que é abrigar-se em alguém. Abraço é encontro de alma e espírito, é deparar-se com o coração do outro; é casa pra se morar.

E quando encontramos essa casa, kitnets já não nos satisfazem mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

NO ÔNIBUS

Lá estava eu, sentada no banco do ônibus enquanto viajava pra longe com a música que destrinchava meus tímpanos de tão alta. Meus pensamentos se anexavam a batida da música. Cachorro, faculdade - parada rápida pra tocar a bateria imaginária junto ao som de Led Zeppelin -, trabalho, provas, curso de inglês na quarta e o chopp com a galera no sábado.

Em meio a lista flutuante e imaginária que criava, olhava de rabo de olho para quem entrava ou saía do ônibus, não por medo, apenas para saber se algum "vovô" ou "doninha" entrariam e precisariam de meu assento.

Até que entre uma dessas rápidas olhadas, voltei-me rapidamente a pessoa em que avistei. Sorri ao vê-lo sorrindo feliz para um bebê que estava no colo de sua mãe e foi isso que me chamou atenção no mesmo. Ele sentiu o olhar e virou-se pra mim rapidamente, fazendo-me não ter tempo de voltar meu olhar. Então encarei. Sem graça, me virei. Mas continuava incomodada, era como um imã que fazia voltar meus olhos à ele e sutilmente ele voltava os seus à mim.

Comecei a prestar mais atenção nele. De terno, claramente um executivo -o que me fazia perguntar a mim mesma o por quê de estar andando em transporte público tão elegante daquela forma-, com um sorriso belíssimo que transparecia ingenuidade apesar da idade. E que idade! Era mais velho. E isso não me incomodava nem um pouco, pelo contrário, até me instigava.

E fiquei ali, imaginando como seria se ao invés de em pé ele sentasse no banco ao lado e puxasse papo: será que era um cara tão interessante quanto aparentava de longe?

E no meio de todos esses pensamentos: - trriiiiiimm! - alguém tocou a campainha do ônibus. Era ele. Antes de descer, virou-se em minha direção e me encarou como quem dizia "até logo", retribuí com um sorriso.

Até hoje não sei o tom de sua voz, ou seu nome, ou o que faz da vida... Sei apenas aquilo que minha imaginação criou. A única certeza que carrego é que gosta de crianças e que é dono de um sorriso hipnotizante. 

Até prefiro esse desfecho. Afinal, melhor que ele permaneça em minha memória como alguém que em pouco menos de 20 minutos me fez lembrá-lo por anos ao invés de alguém que pude ter durante anos e queria que fosse apenas por 20 minutos.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

QUE SEJA

que seja simples. seja imenso. repleto.
que seja cheiro. afago. carinho.
que seja vírgula. reticências.
que seja história. memória. lembrança.
que seja hoje. ontem. amanhã.
que seja explosivo. comedido. cauteloso.
que seja abraço. beijo. partida.
que seja quente. frio. morno.
que seja foto. carta. ligação.
que seja borboleta. embrulho no estômago.
que seja grito. alegria. tristeza.
que seja tradição. que seja o novo. que seja doce.
e mesmo que não seja eterno,
QUE SEJA!
não é conto.

domingo, 19 de abril de 2015

NADA

Me fitava como se soubesse o que se passava em minha cabeça. Desviava todo o tempo seu olhar. Olhar cheio de perguntas, procurando achar respostas no meu. Eu repetia que nada havia, em vão. Ele continuava a perguntar.

Eu, repleta de sentimentos inquebrantáveis por aquele Ser, precisava manter-me firme quanto sua partida. Eu disse que não me permitiria chorar mais uma vez por alguém que desejasse ir embora assim, afinal, a vida é feita de escolhas. Mas ele insistia, parecia não compreender.

E por fim, disse nada haver - tentando deixar claro não só a ele, mas à mim.

Não há nada.
Nada.
Porém, um nada tão cheio de tudo.

domingo, 5 de abril de 2015

EU PODERIA

Eu poderia te ligar agora. Te convidar pra um café quente, ou uma cerveja gelada. Poderia mandar um e-mail te contando as novidades, perguntando sobre o trabalho ou a faculdade. Mais que isso, poderia aparecer na porta do teu trabalho. Te raptar no meio da noite, te levar pra ver o brilho da lua ou sentir a brisa do mar. Poderia. Poderia lhe dizer o quanto faz falta, o quanto eu quis que déssemos certo. O quanto eu tentei e o quão difícil foi ter que abrir mão de você, de nós. Poderia, poderia sim. Poderia fazer isso agora, sei exatamente o horário que chega e sai de casa. Poderia aparecer lá, inventar qualquer desculpa só pra ter a oportunidade de ver seu sorriso mais uma vez. Poderia te enviar uma carta, dessas que costumava escrever, com poucas palavras carregadas de muito sentimento. Poderia. Poderia hoje, poderia agora. Porque durante muito tempo você foi a solução. Mas aí você resolveu ser o problema. E eu deixei de poder, pois já não valia mais a pena.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

CARTA DO PASSADO PRO FUTURO

Cá estou, te escrevendo essa carta ainda que eu não a conheça, para lhe dizer que da mesma forma que a vida sorriu pra mim quando me trouxe de presente ele, hoje sorri pra você.

Ele é cheio de manias, adora gesticular como quem está brigando na rua, fala alto e fica bravo se você o corrige; adora comer porcarias, todo fim de semana vai te levar pra algum lugar.

Sim, ele adora sair.
Adora coisas novas, lugares novos, saídas sem rumo.

Talvez eu tenha falhado um pouco nisso, meu jeito metódico sufocava esse jeito livre dele de ser. Ele é desses que gosta de acordar num sábado de manhã, vestir uma camiseta rosa - não, não foi coincidência ele ter usado roupa de diferentes tipos de rosa, o armário dele é cheio dessa cor -, pôr os fones de ouvido e caminhar sem pensar no que fará mais tarde. Caminhar, andar de bicicleta, jogar futebol, respirar ar puro... viver.

Lógico que ele é cheio de defeitos, vai te dar bronca no momento mais impróprio, talvez feche a cara quando você mais precisar de um sorriso dele. Mas também vai bater na porta da sua casa com um buquê de flores e te pedir perdão, te dar um abraço de urso e sorrir com os olhos marejados de criança sem abrigo. Criança que quer se abrigar num abraço teu.

Ouça-o. Ele sempre terá muito o que dizer, suas conversas nunca serão monótonas. Ele transpira ideias e você será parte fundamental nelas, então ajude-o. Mas só ajude se tiver gosto em fazê-lo, caso contrário, ele se vira bem sozinho.

Bem provável que você se irrite com as brincadeiras de ogro que ele tem, mas não é por mal, ele realmente acha que suas forças são iguais.

Não se assuste se ele lhe enviar cartas, ele aprendeu isso quando ainda éramos amigos e pegou o gosto por expressar o sentimento em palavras. Releve a letra, ele sempre escreve quase dormindo ou acordando pela manhã.

Não se preocupe se no dia seguinte ele já tiver outra grande ideia pro futuro. Ele tem um coração sonhador, mas põe em prática tudo que sonha, ainda que não leve até o fim.

E ah, ele não vai falar. Não adianta pressionar! Depois de uma briga é capaz de você falar durante uma hora inteira sozinha e ele só vai abrir a boca quando sentir que deve ou tem algo a dizer. O máximo que vai fazer é pedir desculpas e assumir o erro, ele não é orgulhoso. Não muito.

Pode ser bem mais fácil pra você entrar de cabeça agora, mas se fosse eu no seu lugar, não aceitaria essas dicas por nada nesse mundo. Nada foi melhor que poder descobrir tudo isso tendo a experiência de vivê-las. E re-descobrir, re-fazer, re-criar, re-amar.

Porque quando não dava certo a gente voltava duas casas e re, outra vez.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ALMA CIGANA

É verdade que eu o amo e não tenho dúvidas do amor do mesmo por mim, já demonstrou diversas vezes que eu não precisava ter insegurança quanto a isso. Mas também é bem verdade que ele é despojado com a vida, nunca foi de se prender em lugar algum e achei injusto mantê-lo aqui em terra firme, enquanto sua cabeça pairava no mar.

É certo que o Zé queria ficar aqui, ao meu lado, mas é certo também que eu já não o sentia tão perto assim há tempos. E não por me amar menos, apenas por amar o mar tanto quanto amava à mim. Eu não sou dessas que pede pra ficar ou implora por amor, acho que o amor quando é verdadeiro é dado livremente, vem pra libertar e não pra prender.

E o Zé... bom, o Zé já não era livre há muito tempo. Eu nunca precisei de muito pra fazê-lo feliz, ele é desses caras simples que se contentam com um amor tranquilo, uma água de coco e um pôr-do-sol visto de dentro de um barco em alto mar.

Outro dia conversando com ele cheguei a conclusão que sua alma era cigana, ele não nasceu pra plantar os pés sobre a terra e ficar durante muito tempo ali. Ele veio ao mundo pra fazer história com seus próprios pés.

E eu o deixei ir, com um sorriso no rosto e um beijo estalado na testa ele partiu, acompanhado de um "se cuida, meu rei" ele entendeu que meu coração é dele, mas o dele é do mundo inteiro. Eu entendi que amar é deixar ir. Nem sempre o que é bom pra você, será bom pro outro. Às vezes é preciso escolher e eu escolhi por ele, porque nada me dói mais que assistir de perto àqueles olhinhos cheios de sonhos enterrados na areia da vida.

sábado, 12 de julho de 2014

O CAFÉ ESFRIOU. E VOCÊ TAMBÉM.

Fiz todos meus afazeres logo pela manhã e quando me dei conta, o café havia esfriado; o vento cessado e em breve me daria conta que o amor; Ah, o amor... havia se perdido em meio a tantas idas e vindas.

— Podemos conversar? - quando ouvi isso automaticamente meus olhos se reviraram. Não por falta de querer, apenas por estar desacreditada que ainda faria alguma diferença. Afinal, quantas conversas mais eram precisas?

— Acha mesmo necessário, Henrique? - indaguei.

Continuei a mexer em papéis enquanto ele tentava remexer em coisas que me trariam mais problemas que toda aquela poeira dentro da minha gaveta. Ele queria mexer em sentimentos antigos, perfurando histórias a dentro que só me faziam sentir desânimo para prosseguir ao seu lado. O pior era ele não perceber, não entender, não querer ver o real problema.

Suspirei. De nada adiantavam todos os sermões, diálogos, horas a fio em explicações. Pois o primeiro passo para chegar a algum lugar é decidir que não está mais disposto a ficar onde está e certamente há tempos não saíamos do mesmo lugar: o egoísmo do nosso querer acima de qualquer outro.

E assim, me decidi. Primeiro entendi que não merecíamos alguém pela metade com meias verdades, meias entregas e meio coração. Ou seria tudo, ou era melhor que não houvesse nada. Entendi que não é justo comigo e com ninguém, pois dar-se pela metade é como um café que esfriou naquela tarde fria: quando mais precisava, não se teve.

Dei um fim nesse meio relacionamento. Não foi fácil, foi necessário jogar muita coisa velha e acumulada no lixo, para que eu conseguisse recomeçar sem estar pela metade. E hoje me vi por inteira, como há muito não me sentia.

Porque por muitas vezes pular fora do barco não é sinal de fraqueza, é entender que a dor pode ser menor por outros caminhos.