terça-feira, 3 de setembro de 2019

FOGARÉU

acendi um fósforo
o álcool já estava lá por si só
começou com uma faísca
como quem não daria em nada
e do nada

labaredas
tão enormes que sequer conseguia enxergar
o que era eu
e o que era
ela

eu via as chamas
que se enlaçavam num monte de coisa que ali estava

as cortinas pegaram fogo primeiro
os livros aos poucos deixavam de ter
tornavam-se ser
eram só memória
memórias essas que a gente nem queria mais
eram parte do que havíamos sido
mas não de quem somos

o fogo que antes estava na sala
agora tomava conta dos quartos
rasteiro
e crescia
CRÊscia
crescIA
tomando conta de tudo

aos poucos o banheiro
antes tão frio
agora era só quentura
a água já não era capaz de apagar
não havia água suficiente
pra sanar tamanho
fogaréu

a sala
os quartos
o banheiro
a cozinha
até a escrivaninha
tudo

tudo pegou fogo

era ardência
fervor
brasa
chama
lume

é ela
o álcool
e eu
o fósforo

que delícia
de fogo
fecho os olhos juntando meu dedo no dela
naqueles pedidos bobos mas cheios de vontade
pedindo a seja lá quem for
que esse fogo
nunca
se apague.

3 de setembro de 2019.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

CARTA PARA A EU DE TRÊS ANOS ATRÁS

menina,
você tá se tornando uma mulher. 
são tantos sonhos, né?
tanta vontade de fazer diferente.
de se atirar no certo.
como você foi parar na escuridão?
onde foi parar a sua luz?
onde foi parar
você?
eu queria mudar teu caminho nesse dia. você trabalhou tanto o dia inteiro, não vai não. não, não coloca essa tua blusa da Alice, você não vai conseguir usar depois. não, não, fica em casa. por favorzinho. vai não. encontra seus amigos  sim. deixa esse encontro pra lá. eu queria tanto ter te feito ficar em casa. você tava tão cansada... e sem perceber já trocava os amigos pra estar com ele. trocava as noites e aos poucos tuas risadas fáceis. trocava teu bar preferido com a tua melhor amiga; as noites em família. eu queria ter conseguido te fazer ficar em casa. você já ia viajar, pro seu cantinho, pra sua Bahia,pra quê se meter nessa história? nesse enlace? e vai doer. você ainda não sabe... mas toda essa alegria vai acabar. e vai doer tanto que você vai implorar por nunca ter entrado nisso. e durante anos não vai conseguir sair... vai achar que a vida não tem graça sem ele, mas é tão pior com, não é? eu sei. você vai chorar tantas noites sozinha e ninguém vai ver. mas eu te juro, de manhã você vai estar viva. e você precisa estar bem pra viver. você é tão forte e só vai se dar conta disso quando sair disso tudo. você nunca desistiu de você mesma, sabia? mesmo remendada, exausta,perdendo peso, ainda assim, você foi. você trabalhou incansavelmente. você foi pra faculdade e terminou ela. e se eu pudesse mudar uma coisa eu teria te feito não perder sua formatura. vai doer estar sozinha nesse dia. vai perfurar seu coração, mas eu juro, você vai passar por isso também. seu aniversário não será comemorado por anos; você vai dizer que não se importa com essa data, mas vai chorar sozinha novamente. você acha que é fraca, mas foi tua força que te salvou! e por fim, eu queria tanto te embalar no meu colo e te dizer: não, ele não vai se matar. ele não vai fazer mal algum à ele mesmo, mas se você parar pra observar, quem morreu foi você. 

*com esse texto eu desejo que você, mulher,tenha a força necessária pra passar por isso. juntas somos fortes! você vai conseguir, eu juro.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

VOCÊ JÁ VIU A MORTE DE PERTO?

Você já viu a morte de perto? Eu já, duas vezes.

A primeira, levou uma das pessoas mais verdadeiras que já conheci. Doce do jeito que era, se escondia atrás de uma casca e só quem conhecia profundamente seu coração sabia a fragilidade que nele havia. Nada disso impedia a força que existia nele, uma das pessoas mais fortes que já passaram pelo meu caminho. Me ensinou com amor coisas que estão entrenhadas em mim até hoje, mesmo depois de tantos anos - e certamente vão morrer comigo. Num dia ele me prometia voltar para um lugar que era nosso; e noutro, se foi. Sem abraço, nem beijo, nem tchau. E ainda assim, permanece aqui. Ele vive num lugar que morte alguma poderá arrancar: dentro de mim.

Já a segunda vez, eu podia ver o amor vivo na pessoa. Havia nascido para juntar-se à mim e se houve outras vidas certamente nos reencontramos em todas elas. Eu sempre fui imensa em tudo que fiz, e se me dei cem por cento não recebi o mesmo, mas ainda assim de alguma forma me bastava. Meus olhos foram-se abrindo aos poucos até que veio a morte, mais uma vez levando alguém o qual fazia meu coração pulsar, depois de tantos anos eu já não me lembrava do gosto amargo que havia nela. Nessa sensação de perda irreparável.

Mas diferente da primeira vez, a pessoa permanece viva por aí. A diferença foi em tê-la perdido em vida. Um belo dia eu senti: morreu. Em mim e em tudo que eu planejava. As palavras já não soavam com verdade - se é que soaram algum dia - e os atos nunca condisseram com as palavras. Isso me faz questionar: como pode morrer algo que jamais existiu?

Enquanto a morte do corpo nunca foi capaz de apagar uma das pessoas que mais amei na vida, a vivência foi capaz de matar alguém que ainda vive
mas não mais
em mim.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A CAIXA

Peguei todo o nosso sentimento e transformei em algo palpável. Eu carregava todo o nosso amor naquela caixa. Eram momentos incrivelmente bons e outros dolorosamente ruins, mas eu jamais pensei em largá-la.

Ela era aquilo que tínhamos de mais valioso, todo o nosso puro sentimento carregado um pelo outro. Uma caixa imensa, às vezes pesava um pouco mais, às vezes pouco menos. Mas sempre pesava, afinal, havia tanto de nós ali dentro. Essa caixa era repleta de memórias, podia sentir a brisa de um dia frio na varanda ao seu lado.

A caixa começou a pesar mais que eu poderia aguentar, mas eu sempre aguentava. Eu fazia manobras para que ela pudesse ficar mais leve; sorria toda vez que o peso era ao ponto de chorar; carregava essa caixa com todo cuidado que eu pudesse ter.

Um dia, carregando minha caixa pra cima e pra baixo, já curvada, com olheiras de quem não dormia e cara de quem não comia, uma amiga perguntou: - Quê isso?
- Minha caixa.
- Que caixa, menina? Não tem nada aí.

E aí me dei conta: eu carregava um peso tão grande e sequer percebia que nada havia. Era em vão. Carreguei nossa caixa sozinha. E o que havia dentro era a enorme vontade daquilo que jamais existiu.

Chega.

Joguei tudo no primeiro lixo que encontrei. Nunca mais carrego um peso que não é meu.


   

domingo, 28 de janeiro de 2018

HOJE EU NÃO VOU BEBER

Hoje eu não vou beber.

A ressaca invadia minha cabeça, fazendo chacoalhar tudo em mim e eu só pensava no fato de não conseguir pensar em nada.
Não conseguia pensar que algo faltava nas noites, essas que insistiam ser longas sem a tua presença.

Ai! A dor na cabeça agora passava para o estômago. E eu não conseguia pensar nas infinitas pontadas que senti na barriga por sentir tanto e você tão pouco. Definitivamente não vou beber hoje.

Não pensei também em como nossos dias eram calorosamente bons e como nossos corpos se reencontravam até de olhos fechados no escuro. O sono pela noite anterior era imenso e certamente hoje não é dia para se beber.
Ouvi de relance Frank Sinatra, Janis Joplin e Amy Winehouse e adivinha? Sequer consegui fazer menção àquela odiosa e desgraçadamente boa playlist que havia feito pra nós.

E olha, bebi tanto que nem consegui lembrar de você com outra. Mas pela manhã vomitei tudo e junto vomitei as lembranças suas que haviam em mim.

E agora, 
analisando, 
já me sinto sóbria pra lembrar de tudo outra vez.

Hoje eu vou beber!

   

domingo, 7 de janeiro de 2018

AQUELA FOTO

Entrei no facebook dele. Analisei bem aquela foto e me perguntei o por quê de me chamar tanta atenção. Nada fiz. Saí de lá. 

Dias depois, voltei a acessar sua página. E assim foi por uns 3 ou 4 dias seguidos, e eu não entendia o que me fazia voltar lá. Não tínhamos qualquer contato, o que eu sabia dele era o pouco que qualquer um poderia saber.

Mas aquela foto... Nossa, como me chamava atenção! Click. Pedi solicitação de amizade. Depois de anos em que havíamos tido o mínimo de contato possível, lá estava eu, adicionando-o sem qualquer pretensão. Mas é que aquela foto... Ah...

Depois dessa solicitação passou basicamente um ano ou mais sem qualquer contato, até nos depararmos com uma série a qual eu assistia e ele já tinha assistido. Trocamos algumas palavras durante alguns meses. Diz ele que havia demonstrado interesse, eu nunca percebi. E se percebi, não levei fé. Não nele, não com todas as pré impressões que havia do mesmo.

Meses se passaram. Aquela série, que viraria minha preferida, havia nos dado uma brecha. E nós haviamos nos dado uma chance. 

Séries, músicas, humor ácido. Tínhamos muito mais em comum que imaginávamos. Deixamos pessoas pelo caminho e nos agarramos ao que éramos um para o outro. Nos percebemos literalmente sintonizados, falávamos sobre coisas iguais num mesmo minuto, comíamos a mesma comida em casas diferentes, ouvíamos a mesma música e claro: pensávamos na mesma pessoa: eu nele e ele em mim. Pois nessa altura do campeonato já havíamos virado um.

Queríamos manter tudo aquilo entre nós, tínhamos medo de mostrar todo o nosso sentimento ao mundo e sermos respondidos com olhos maiores do que deveriam, mas nosso amor era tão imenso que ele próprio se sustentava. E nós não fazíamos questão de manter-lhe aprisionado em nós mesmos, era tanto, que sentíamos nossos corações baterem numa mesma música. E tudo isso havia iniciado por aquela foto...

Vivemos todos os sentimentos do mundo de uma só vez, era como se ainda que pessoas tivessem passado por nossos caminhos, havíamos vivido todo esse tempo esperando um pelo outro. Os dias juntos eram poucos e os minutos longe eternos. Queríamos toda a vida pra nós. E se houvessem outras, que pudéssemos nos encontrar mais rápido que nessa. E viver tudo de novo outra vez.

Mas todo esse amor deu lugar à saudade. E hoje, ao clicar em sua página, me deparei com a mesma foto de anos atrás. Aquela a qual ainda tanto me chama atenção, só que agora com motivos diferentes. Antes era o mistério. E agora, com ele desvendado, a saudade é de tudo que pude descobrir sobre ele e me redescobrir ao lado dele.

Ah, aquela foto... Click. Saí. Só que dessa vez foi muito mais que rede social. 
   

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

CARTA DO PASSADO PARA O FUTURO II

Já deixo claro de antemão que não queria ter que escrever essa carta... não essa. Não pra outra pessoa que não fosse eu mesma.

Não sei como é o relacionamento de vocês, mas o nosso foi desses deliciosos. Muito conturbado, mas repleto de histórias hilárias e gargalhadas estrondosas. E muito, muito amor.

Cê já abriu o armário dele? Eu sei, só tem preto. E não é que ele fica lindo? Mas confesso que ainda prefiro ele de cinza, umas três camisas apenas que existem no meio dessa multidão dark (risos). Fica tranquila, você vai se acostumar ao fato dele não usar cuecas. Shorts serão o máximo de pano que você vai ver nele.

Essa carta é tão incrivelmente diferente da "Carta do passado pro futuro I" que dá vontade de rir só em lê-la. Ele é totalmente o contrário do meu primeiro namorado, a nossa preguiça se encaixava quase que perfeitamente. Nossos fins de semana e dias de folga se resumiam a Netflix na cama e comer besteiras. Nuggets! Nossa, como comíamos isso. E hambúrgueres, salgadinhos e japa. E bom, quanto ao Netflix, confesso que resumia-se apenas a "how i met your mother". Tentamos - juro que tentamos - começar séries novas juntos, assistir diferentes filmes e documentários, mas sempre acabávamos em HIMYM. Sempre. Always.

Ele é muito pé no chão. Muito fechado também. Se ele abrir o coração dele com você, dê atenção. Isso não acontecerá com frequência, mas se acontecer, acredite, você é realmente valiosa. Se ele te incluir em seus sonhos, mete o pé no acelerador e vai. Juntos pensávamos em data do casamento, pois tínhamos certeza de que aconteceria. Os nomes dos filhos escolhemos, e eu duvido que use os mesmos com você. Perdoe a sinceridade, é que era uma coisa muito nossa.

A nossa história é aquele potinho onde você guarda os melhores segredos e morre de ciúmes de mostrar ao mundo, sabe? Quando oficializamos nosso relacionamento para as pessoas, assistíamos juntos as diversas reações de choque em rede social. E ríamos de gargalhar, deitados, pensando no quão louco devia ser para essas pessoas que conheciam - mesmo que pouquíssimo - ambos. Tão diferentes, eles deviam pensar. Tão iguais, nós havíamos descoberto.

Eu e ele éramos café com leite. Eu, agito. Ele, calmaria. Me via fazendo diversas coisas ao mesmo tempo, falando três diferentes assuntos, explicando histórias de pessoas que nem ele mesmo conhecia e ele ali, com aqueles olhos miúdos e um sorriso de canto de boca, me ouvindo atentamente com aquele ar de paciência que só ele tem. No fim das contas eu parava tudo e falava: "ai, tô falando demais, né? Vou parar". E ele ria: "Não, não, fala. Eu tô ouvindo. E gostando", e a gente se beijava. E se amava. E ficava ali, no nosso cantinho, repetindo inúmeras vezes um para o outro: "Quem diria?" - e rindo logo após.

Ah... Esse homem... Ele me virou de ponta a cabeça. Quando começamos tudo, a última coisa que eu queria era alguém, mas ele era cheio de um mistério que eu tinha quase necessidade em desvendar. E nossos gostos, gestos e falas se sintonizavam a cada segundo. Eu quis me prender àquela história. Quis que nossas vidas se interligassem.

Ele dizia que eu mexi com a cabeça dele desde o início, que enfrentava ele de forma que alguém jamais fez e isso deixava ele maluco. Confesso que eu amava isso. Eu via a forma que as pessoas o tratavam e ria desacreditada, ele batia o pé que não, mas todos pisavam em ovos com o mesmo. E comigo ele era tão ele, totalmente desarmado, sem medo de expor opiniões ou sentimentos. Ouvi algumas vezes a frase "nunca contei isso pra ninguém..." da boca dele. E que delícia! Que bom saber que fui importante como ele foi.
Quis tanto que não virássemos passado no presente um do outro, mas as circunstâncias nos fizeram assim. Cada um para um caminho diferente... E como doeu, ainda dói, mas a verdade é que toda noite eu peço pra Deus continuar guardando ele, já que eu não posso mais fazer isso. E bom, agora ele tem você.

Eu sei que o que tivemos jamais teremos com mais ninguém. Sabe aquele único grande amor na vida? Então. Mas a gente se acostuma a viver sem, né? A gente dá lugar a trabalhos, séries, saídas. A gente dá um jeito. A gente tenta. Mas eu sei que no fundo, quando a gente se deita, ainda lembra de como cabíamos perfeitamente enlaçados numa pequena cama de solteiro. E como jamais encontraremos isso em outros corpos. Mas a gente tenta.
A gente tenta.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

HE

(nan)
Ele que surgiu como quem ressurge das cinzas.
Pessoa que em nada me acrescentava e hoje tanto me soma.
No pouco.
Nas entrelinhas.
Eu que nunca liguei pro extraordinário, vi nele o ordinário perfeito.
O mar que em mim se torna turbilhão de sentimentos,
Me faz imaginá-lo como um oceano sem fim.
Vi nele pretensão alguma,
Que causou total efeito em mim.
Naqueles olhinhos pequenos, enxerguei uma imensidão em Pessoa.
Em conversas aleatórias, me vi presa.
A sintonia era inimaginável e os gostos se complementavam.
Em casca me fiz dura, enquanto por dentro derretia.
E aos poucos transparecia.
Fugi como diabo foge da Cruz.
Amar não, amor não é pra mim.
Não mais.
Nem um pouquinho, nem um montão.
Em vão.
Todo lugar que olhava,
O via, encarando a mim.

domingo, 26 de julho de 2015

QUERIA EU MORAR NUM ABRAÇO

Estávamos numa festa, olhei-o; percebi que o mesmo já me encarava, virei-me sem graça. Voltei a olhá-lo, ele percebeu e como numa fração de segundos virou-se em minha direção, sorrimos antes que desse tempo de uma segunda virada de cabeça. Aquele momento implorava por uma troca maior que apenas olhares, meu pensamento insistia em querer conhecer mais a fundo aquele que tanto me intrigava, e eu não sabia nem mesmo seu nome.

Essa noite poderia terminar de três diferentes formas:
1. Em arrependimento! Sorrio e saio de fininho;
2. Num beijo e possível troca de números do WhatsApp;
3. Num quarto, longe dali.

Mas jamais terminaria:
1. Num abraço.

Abraço é muito démodé. A graça é conhecer rápido, falar pouco e beijar muito. Raramente uma troca de mensagens no dia seguinte. A graça é sentarmos numa mesa e ao invés de trocarmos histórias e gargalhadas, trocarmos wifi nos iludindo estarmos "juntos". Abraço, quê é isso mesmo?

Beijo é bom, não disse o contrário. É calor, conexão, encontro, intimidade. Mas não há nada mais íntimo que poder dar-se num abraço. Queria eu morar num abraço! Viver dentro do refúgio que é abrigar-se em alguém. Abraço é encontro de alma e espírito, é deparar-se com o coração do outro; é casa pra se morar.

E quando encontramos essa casa, kitnets já não nos satisfazem mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

NO ÔNIBUS

Lá estava eu, sentada no banco do ônibus enquanto viajava pra longe com a música que destrinchava meus tímpanos de tão alta. Meus pensamentos se anexavam a batida da música. Cachorro, faculdade - parada rápida pra tocar a bateria imaginária junto ao som de Led Zeppelin -, trabalho, provas, curso de inglês na quarta e o chopp com a galera no sábado.

Em meio a lista flutuante e imaginária que criava, olhava de rabo de olho para quem entrava ou saía do ônibus, não por medo, apenas para saber se algum "vovô" ou "doninha" entrariam e precisariam de meu assento.

Até que entre uma dessas rápidas olhadas, voltei-me rapidamente a pessoa em que avistei. Sorri ao vê-lo sorrindo feliz para um bebê que estava no colo de sua mãe e foi isso que me chamou atenção no mesmo. Ele sentiu o olhar e virou-se pra mim rapidamente, fazendo-me não ter tempo de voltar meu olhar. Então encarei. Sem graça, me virei. Mas continuava incomodada, era como um imã que fazia voltar meus olhos à ele e sutilmente ele voltava os seus à mim.

Comecei a prestar mais atenção nele. De terno, claramente um executivo -o que me fazia perguntar a mim mesma o por quê de estar andando em transporte público tão elegante daquela forma-, com um sorriso belíssimo que transparecia ingenuidade apesar da idade. E que idade! Era mais velho. E isso não me incomodava nem um pouco, pelo contrário, até me instigava.

E fiquei ali, imaginando como seria se ao invés de em pé ele sentasse no banco ao lado e puxasse papo: será que era um cara tão interessante quanto aparentava de longe?

E no meio de todos esses pensamentos: - trriiiiiimm! - alguém tocou a campainha do ônibus. Era ele. Antes de descer, virou-se em minha direção e me encarou como quem dizia "até logo", retribuí com um sorriso.

Até hoje não sei o tom de sua voz, ou seu nome, ou o que faz da vida... Sei apenas aquilo que minha imaginação criou. A única certeza que carrego é que gosta de crianças e que é dono de um sorriso hipnotizante. 

Até prefiro esse desfecho. Afinal, melhor que ele permaneça em minha memória como alguém que em pouco menos de 20 minutos me fez lembrá-lo por anos ao invés de alguém que pude ter durante anos e queria que fosse apenas por 20 minutos.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

QUE SEJA

que seja simples. seja imenso. repleto.
que seja cheiro. afago. carinho.
que seja vírgula. reticências.
que seja história. memória. lembrança.
que seja hoje. ontem. amanhã.
que seja explosivo. comedido. cauteloso.
que seja abraço. beijo. partida.
que seja quente. frio. morno.
que seja foto. carta. ligação.
que seja borboleta. embrulho no estômago.
que seja grito. alegria. tristeza.
que seja tradição. que seja o novo. que seja doce.
e mesmo que não seja eterno,
QUE SEJA!
não é conto.

domingo, 19 de abril de 2015

NADA

Me fitava como se soubesse o que se passava em minha cabeça. Desviava todo o tempo seu olhar. Olhar cheio de perguntas, procurando achar respostas no meu. Eu repetia que nada havia, em vão. Ele continuava a perguntar.

Eu, repleta de sentimentos inquebrantáveis por aquele Ser, precisava manter-me firme quanto sua partida. Eu disse que não me permitiria chorar mais uma vez por alguém que desejasse ir embora assim, afinal, a vida é feita de escolhas. Mas ele insistia, parecia não compreender.

E por fim, disse nada haver - tentando deixar claro não só a ele, mas à mim.

Não há nada.
Nada.
Porém, um nada tão cheio de tudo.

domingo, 5 de abril de 2015

EU PODERIA

Eu poderia te ligar agora. Te convidar pra um café quente, ou uma cerveja gelada. Poderia mandar um e-mail te contando as novidades, perguntando sobre o trabalho ou a faculdade. Mais que isso, poderia aparecer na porta do teu trabalho. Te raptar no meio da noite, te levar pra ver o brilho da lua ou sentir a brisa do mar. Poderia. Poderia lhe dizer o quanto faz falta, o quanto eu quis que déssemos certo. O quanto eu tentei e o quão difícil foi ter que abrir mão de você, de nós. Poderia, poderia sim. Poderia fazer isso agora, sei exatamente o horário que chega e sai de casa. Poderia aparecer lá, inventar qualquer desculpa só pra ter a oportunidade de ver seu sorriso mais uma vez. Poderia te enviar uma carta, dessas que costumava escrever, com poucas palavras carregadas de muito sentimento. Poderia. Poderia hoje, poderia agora. Porque durante muito tempo você foi a solução. Mas aí você resolveu ser o problema. E eu deixei de poder, pois já não valia mais a pena.

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

CARTA DO PASSADO PRO FUTURO

Cá estou, te escrevendo essa carta ainda que eu não a conheça, para lhe dizer que da mesma forma que a vida sorriu pra mim quando me trouxe de presente ele, hoje sorri pra você.

Ele é cheio de manias, adora gesticular como quem está brigando na rua, fala alto e fica bravo se você o corrige; adora comer porcarias, todo fim de semana vai te levar pra algum lugar.

Sim, ele adora sair.
Adora coisas novas, lugares novos, saídas sem rumo.

Talvez eu tenha falhado um pouco nisso, meu jeito metódico sufocava esse jeito livre dele de ser. Ele é desses que gosta de acordar num sábado de manhã, vestir uma camiseta rosa - não, não foi coincidência ele ter usado roupa de diferentes tipos de rosa, o armário dele é cheio dessa cor -, pôr os fones de ouvido e caminhar sem pensar no que fará mais tarde. Caminhar, andar de bicicleta, jogar futebol, respirar ar puro... viver.

Lógico que ele é cheio de defeitos, vai te dar bronca no momento mais impróprio, talvez feche a cara quando você mais precisar de um sorriso dele. Mas também vai bater na porta da sua casa com um buquê de flores e te pedir perdão, te dar um abraço de urso e sorrir com os olhos marejados de criança sem abrigo. Criança que quer se abrigar num abraço teu.

Ouça-o. Ele sempre terá muito o que dizer, suas conversas nunca serão monótonas. Ele transpira ideias e você será parte fundamental nelas, então ajude-o. Mas só ajude se tiver gosto em fazê-lo, caso contrário, ele se vira bem sozinho.

Bem provável que você se irrite com as brincadeiras de ogro que ele tem, mas não é por mal, ele realmente acha que suas forças são iguais.

Não se assuste se ele lhe enviar cartas, ele aprendeu isso quando ainda éramos amigos e pegou o gosto por expressar o sentimento em palavras. Releve a letra, ele sempre escreve quase dormindo ou acordando pela manhã.

Não se preocupe se no dia seguinte ele já tiver outra grande ideia pro futuro. Ele tem um coração sonhador, mas põe em prática tudo que sonha, ainda que não leve até o fim.

E ah, ele não vai falar. Não adianta pressionar! Depois de uma briga é capaz de você falar durante uma hora inteira sozinha e ele só vai abrir a boca quando sentir que deve ou tem algo a dizer. O máximo que vai fazer é pedir desculpas e assumir o erro, ele não é orgulhoso. Não muito.

Pode ser bem mais fácil pra você entrar de cabeça agora, mas se fosse eu no seu lugar, não aceitaria essas dicas por nada nesse mundo. Nada foi melhor que poder descobrir tudo isso tendo a experiência de vivê-las. E re-descobrir, re-fazer, re-criar, re-amar.

Porque quando não dava certo a gente voltava duas casas e re, outra vez.

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

ALMA CIGANA

É verdade que eu o amo e não tenho dúvidas do amor do mesmo por mim, já demonstrou diversas vezes que eu não precisava ter insegurança quanto a isso. Mas também é bem verdade que ele é despojado com a vida, nunca foi de se prender em lugar algum e achei injusto mantê-lo aqui em terra firme, enquanto sua cabeça pairava no mar.

É certo que o Zé queria ficar aqui, ao meu lado, mas é certo também que eu já não o sentia tão perto assim há tempos. E não por me amar menos, apenas por amar o mar tanto quanto amava à mim. Eu não sou dessas que pede pra ficar ou implora por amor, acho que o amor quando é verdadeiro é dado livremente, vem pra libertar e não pra prender.

E o Zé... bom, o Zé já não era livre há muito tempo. Eu nunca precisei de muito pra fazê-lo feliz, ele é desses caras simples que se contentam com um amor tranquilo, uma água de coco e um pôr-do-sol visto de dentro de um barco em alto mar.

Outro dia conversando com ele cheguei a conclusão que sua alma era cigana, ele não nasceu pra plantar os pés sobre a terra e ficar durante muito tempo ali. Ele veio ao mundo pra fazer história com seus próprios pés.

E eu o deixei ir, com um sorriso no rosto e um beijo estalado na testa ele partiu, acompanhado de um "se cuida, meu rei" ele entendeu que meu coração é dele, mas o dele é do mundo inteiro. Eu entendi que amar é deixar ir. Nem sempre o que é bom pra você, será bom pro outro. Às vezes é preciso escolher e eu escolhi por ele, porque nada me dói mais que assistir de perto àqueles olhinhos cheios de sonhos enterrados na areia da vida.

sábado, 12 de julho de 2014

O CAFÉ ESFRIOU. E VOCÊ TAMBÉM.

Fiz todos meus afazeres logo pela manhã e quando me dei conta, o café havia esfriado; o vento cessado e em breve me daria conta que o amor; Ah, o amor... havia se perdido em meio a tantas idas e vindas.

— Podemos conversar? - quando ouvi isso automaticamente meus olhos se reviraram. Não por falta de querer, apenas por estar desacreditada que ainda faria alguma diferença. Afinal, quantas conversas mais eram precisas?

— Acha mesmo necessário, Henrique? - indaguei.

Continuei a mexer em papéis enquanto ele tentava remexer em coisas que me trariam mais problemas que toda aquela poeira dentro da minha gaveta. Ele queria mexer em sentimentos antigos, perfurando histórias a dentro que só me faziam sentir desânimo para prosseguir ao seu lado. O pior era ele não perceber, não entender, não querer ver o real problema.

Suspirei. De nada adiantavam todos os sermões, diálogos, horas a fio em explicações. Pois o primeiro passo para chegar a algum lugar é decidir que não está mais disposto a ficar onde está e certamente há tempos não saíamos do mesmo lugar: o egoísmo do nosso querer acima de qualquer outro.

E assim, me decidi. Primeiro entendi que não merecíamos alguém pela metade com meias verdades, meias entregas e meio coração. Ou seria tudo, ou era melhor que não houvesse nada. Entendi que não é justo comigo e com ninguém, pois dar-se pela metade é como um café que esfriou naquela tarde fria: quando mais precisava, não se teve.

Dei um fim nesse meio relacionamento. Não foi fácil, foi necessário jogar muita coisa velha e acumulada no lixo, para que eu conseguisse recomeçar sem estar pela metade. E hoje me vi por inteira, como há muito não me sentia.

Porque por muitas vezes pular fora do barco não é sinal de fraqueza, é entender que a dor pode ser menor por outros caminhos.



quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

UMA CARTA ENVIADA TARDE DEMAIS

Oi, sou eu. Sei que é tarde, mas eu vim. Sou eu...

Já escrevi tantas outras cartas, mais precisamente, 364. Uma pra cada dia do ano. Estão todas empacotadas num canto do meu quarto, não tive coragem de enviar uma se quer. Ao lado estão mais duas caixas, uma cheia de presentes que comprei pra lhe dar, cada um com significado diferente e todos me remetem você. E a outra, bom, a outra caixa é repleta de coisas nossas: Papéis de bombons com frases românticas, fotos nossas, entradas de cinema que fomos juntos - e os que fui sozinha, pensando em você. Ursinhos com seu perfume, presentes que me deu, bilhetes de "eu te amo" que você espalhava pela casa... 

Desde que fomos cada um pra um lado, podia ainda te sentir aqui, como se fôssemos um. Como se nunca deixássemos de ser um.

Hoje, quando tomei coragem suficiente pra te escrever, era tarde demais. Tarde demais pra dizer "Volta pra mim, temos tanto pra viver". Tarde demais pra juntar todas essas cartas e presentes e bater na porta da sua casa, dizendo "É tudo pra você, é tudo de nós dois". Tarde pra dizer que nossa história nunca é tarde pra recomeçar. 

Mas foi tarde. Tarde demais!

E sentada em nosso banco preferido daquela pracinha, me pergunto: E agora? O que faço com tudo isso? O que faço com aquelas caixas, com as cartas, com os presentes? O que faço com toda nossa história? O que eu faço? 

E a única coisa em que consigo pensar é no quanto demorei pra tomar coragem. O quanto foi preciso pra que enfim levantasse daquela cadeira e deixasse o papel de lado.

E hoje você deixa de ser meu companheiro em terra, pra ser meu anjo no Céu. E assim, aqui no seu caixão, ponho a última carta que te escrevo. Eu vim como te prometi há anos atrás, agora você sabe, eu vim.

Me desculpe por ter sido tarde demais.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

VIDA QUE GERA VIDA

Acordei no meio da noite com Giovana tendo a maior das contrações nesses 9 meses. Fiquei tão nervoso que mal conseguia pensar no que fazer, respirei fundo e... “Aaaah, vai nascer!”. Arregalei os olhos quando ela gritou isso acenando pra que eu pegasse a mala que já estava arrumada há mais de 2 meses – por sinal, não faço ideia do por quê mulheres fazem isso. Mas tudo bem, catei tudo e coloquei no carro, inclusive minha amada esposinha linda e pronta pra pôr mais uma vida no mundo.

Chegando no hospital, corri gritando qualquer pessoa que pudesse nos ajudar. Logo apareceram enfermeiras que puseram Giovana sentada numa cadeira de rodas e nos direcionaram para um quarto. Respirava fundo e falava pra Gio fazer o mesmo.

Amor, vai dar tudo certo. Ok? Daqui uns momentos nossa pequena estará em nossos braços. - As palavras cuspiam pra fora da minha boca, meu nervosismo era evidente.
Marcos, meu amor, calma! - Ela tentava me acalmar, rindo. Dá pra acreditar? Ela, prestes a dar luz tendo que me acalmar.
Eu tô bem, minha linda! Tô aqui com você, está bem? - Segurei firme em sua mão, entrelaçando nossos dedos.

Vamos levá-la pra sala de parto em 5 minutos. - Disse uma enfermeira e saiu do quarto.
Marcos, liga para nossos pais, tá?
Já liguei, amor. Tô só esperando eles chegarem. - Sorria enquanto acariciava seu rosto. Por dentro meu coração parecia um tambor e sentia meu rosto queimar de tanto nervoso.

Levaram Giovana pra sala de parto e eu fui conferir se nossos parentes haviam chegado. Dei graças a Deus quando vi meu pai em pé, sorridente e feliz por saber que sua netinha logo falaria “vovô” por aí. Corri em direção a ele.
Pai, não sei o que fazer. A Giovana já foi pra sala de parto, tô com medo. Não sei como agir, não quero passar isso pra...
Ei, filho – Ele dava tapinhas em meus ombros – não é hora de pensar, está bem? Sua esposa está lá dentro ansiando por sua presença ao lado dela, independente de como estiver. Ela precisa de você nesse momento e daqui uns minutos sua filha, SUA FILHA, estará no mundo. Tem certeza de que não quer ser o primeiro a vê-la? - Sorri aliviado. Meu pai sempre foi assim, me ajudava a mudar de menino para homem.

Corri pra sala 208, onde faziam os últimos ajustes pra começar o parto. Fui para o lado de Giovana: Meu amor, eu tô aqui do seu lado.. E da nossa filha. - Dei um beijo em sua testa e ela retribuiu com um sorriso.

Logo em seguida podia ouvir o chorinho da nossa pequena. A médica pôs nossa menina em meu colo e me agachei ao lado de Giovana, sentia que agora éramos completos. Sorríamos com lágrimas nos olhos. Era tão pequenina, tão ingênua, tão pura... Por isso demos o nome de Clara. Clara como a luz do dia.

Olhando pra Clara eu pude entender o que é verdadeiramente o amor! Deus junta um casal destinado a viver como um para sempre. E este amor é tão grande que não caberia em fotos, músicas ou cartas. Por isso a maior prova de que existe é o filho, quando se olha pra ele um consegue enxergar o outro. E novamente se encontram, mesmo que estejam separados.

É o amor de um casal que gera o maior amor de suas vidas: Seus filhos! Mais que herança de seus bens, são a herança de tudo aquilo que são.

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

AMIGA DE NEGRITO

Assim resolvi chamar minha amiga mais próxima, aquela que sempre esteve ao meu lado até quando não estive ao dela. Garanto que vocês também já tiveram uma amiga assim, em negrito. É daquele tipo de amiga que te liga até quando você já perdeu o número dela dentre seus papéis e bagunça; que te manda e-mail mesmo que os outros 364 não tenham sido respondidos durante todo o ano; que se importa em saber se você está estudando direitinho ou se vai perguntar pra sua diretora, se for preciso. Aquela amiga que sente exatamente o que você sente; que te liga na hora que você mais precisa e diz “O que houve? Sei que não está bem” te deixando totalmente sem palavras pela rapidez em reconhecer seu coração.

Amigas assim certamente não são tão fáceis de encontrar quanto se pensa. Sempre haverá diversas amigas, até mesmo em itálico, mas em negrito posso lhe garantir que terá de procurar bastante. Ou somente esperar.

Amiga em negrito, ou amiga de negrito é aquela que conquista não só seu coração, mas o coração da sua família e até mesmo do seu namorado. Que sabe o nome de todas as pessoas importantes na sua vida e que faz careta quando você fala sobre outra amiga especial. Que diz “vai lá com ela” quando na realidade está morrendo de ciúmes querendo que fique.

É verdade que têm namorados que sentem ciúmes das amigas de negrito, seja por elas saberem tanto sobre você e quererem de alguma forma mostrar “conheço tanto ou até mais que você” ou pelo simples fato de terem que dividi-la com toda essa negritude que ambas tem uma com a outra. Já ouvi dizer que amizade entre mulheres é como um “casamento” e acho um pouco exagerado. Com toda certeza amiga em negrito é amiga fiel e precisa tanto de você quanto dela, mas o tempo para cada uma é necessário. Fique tranquila, ser amiga de negrito é entender que você tem um namorado, faculdade, trabalho ou até mesmo família para cuidar e precisa desse tempo só ou até sumir às vezes. Mas que ao telefonar querendo sumir de toda essa realidade, ela somente dirá “Estava esperando sua ligação, pode vir.”.

Pode ser clichê, mas a realidade é que uma amiga em negrito sempre irá lhe dizer a verdade e não aquilo que você quer escutar. Ela dirá o que você precisa ouvir, seja bom ou ruim. Se você tem como amiga que concorda com tudo que faz e diz, isso é uma parceira de crime, não uma amiga de negrito. Vocês duas se xingam entre quatro paredes, mas o mundo nunca poderá falar mal de sua grande amiga em negrito.

É legal saber que tem alguém com você o tempo inteiro em que precisar. Que vai te ouvir, gritar e rir com você; pegar um ônibus e sair em pleno domingo à noite só para tomar um sorvete e reclamar do fim de semana ruim que tiveram ou da semana que já vai começar. Ligar numa terça-feira de madrugada só pra contar a fofoca do dia e mandar sms o dia inteirinho rindo de como a vida te prega peças. Mas também compreender que sua amiga tem um espaço que é só dela e nem mesmo você, com toda essa negritude poderá ultrapassar. Ser amiga de negrito é isso, estar e não estar. Às vezes o importante não é falar e falar, tagarelar o tempo inteiro. Tem dias que ela só precisa da presença, do sorriso e do silêncio.

O nome disso tudo é ser melhor amiga. Assim, desse jeitinho, em negrito!

Esse texto é inspirado em uma grande
e eterna amiga, SF. Obrigada por tudo sempre!

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

RECONCILIAÇÃO

Gabriel saiu do banho, automaticamente fechei os olhos e fingi dormir. Estava magoada demais para uma discussão aquela hora, já bastava ter aguentado ficar naquela festa até o final. Só queria dormir e tentar esquecer essa noite nada satisfatória.

Sei que está acordada, Letícia. - Gemi por dentro, mas continuei intacta, sem dar um movimento. Você jura que vai dormir sem falar comigo? E justamente por causa de uma festa e pessoas sem importância alguma?

Não aguentei, dei um riso falso. Abri os olhos e virada de lado podia vê-lo vestido em sua boxer rosa e camiseta branca, secando o cabelo molhado na toalha.

Letícia? - A voz dele havia passado de especulação para um pedido Lê, por favor.
Não quero conversar.
Mas meu amor, por favor, acredita em mim.
Gabriel, por favor digo eu! Estou cansada, já chega por hoje.

Ele deu um salto na cama, se deitou ao meu lado me abraçando pelas costas e sussurrando no meu ouvido dizia: Amor, essa mulher não tem noção! Você sempre soube disso. Eu nunca nem dei bola pra ela. Por favor, amor, me ouve. - Podia sentir o choro entalado em minha garganta, mas me mantinha firme e quieta, sofrendo em silêncio.
A única mulher que eu amo e sou loucamente apaixonado é você! É com você que eu escolhi passar todos os dias da minha vida. Escolhi você porque vê-la só umas horinhas não me bastavam, eu queria dormir e acordar ao seu lado para sempre.

Interrompi-o com lágrimas transbordando meus olhos Essa mulher não me respeita, não respeita minha presença. Age como se eu não estivesse ali...

Chorava que nem bebê. Estava extremamente magoada, com uma dor no peito me sentindo afrontada. Nunca liguei pra esse tipo de mulher que insiste em querer atenção de pessoas que ao menos ligam para sua presença, sempre fui segura quanto o amor de Gabe por mim. Afinal, não ficamos anos namorando e depois casamos à toa, sabíamos perfeitamente aonde estávamos pisando. E mesmo depois de tantos anos, nosso amor ainda era o mesmo daquele primeiro dia juntos.

Mas certamente essa noite havia passado daquilo que eu poderia aguentar sorrindo, abraçar Gabe como se fossem grandes e eternos amigos era demais pra mim. Sorte a dela ele ter me segurado e ignorado-a, deixando sem graça diante os outros convidados da festa, caso contrário não responderia pelos meus atos. E Gabe, bom, ele sabia disso melhor que ninguém.

Amor, você é minha vida desde o dia que lhe dei nosso primeiro beijo. E ela simplesmente não se conforma de eu ter escolhido você, de eu amá-la mais que minha própria vida. Eu sinto muito se existem pessoas como essa mulher que não respeitam um casal, e acabam nos incomodando. Mas não esquece que na realidade, mais que tudo, ela não se conforma das pessoas gostarem e a respeitarem tanto e com ela ao menos falarem. - Ele falava enquanto me acolhia em seu colo e acariciava meu rosto. — Lê, minha princesa, é você quem eu amo. E ninguém nunca vai mudar isso.

Me deu um beijo relembrando o amor que sentia por mim e me fazendo lembrar que sou eu a companheira de todos os dias dele, sejam bons ou ruins. Sou eu quem estou ao seu lado quando chega cheio de novidades do trabalho ou com lágrimas nos olhos por algo ter dado errado. Sou eu! E mulher nenhuma poderia competir com o fato dele me amar imensamente e eu a ele, como nunca amamos outros em nossas vidas.

E lá ficamos, deitados, apreciando a presença um do outro. Por mais que doesse brigar, nada superava a deliciosa sensação da reconciliação.