quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

A CAIXA

Peguei todo o nosso sentimento e transformei em algo palpável. Eu carregava todo o nosso amor naquela caixa. Eram momentos incrivelmente bons e outros dolorosamente ruins, mas eu jamais pensei em largá-la.

Ela era aquilo que tínhamos de mais valioso, todo o nosso puro sentimento carregado um pelo outro. Uma caixa imensa, às vezes pesava um pouco mais, às vezes pouco menos. Mas sempre pesava, afinal, havia tanto de nós ali dentro. Essa caixa era repleta de memórias, podia sentir a brisa de um dia frio na varanda ao seu lado.

A caixa começou a pesar mais que eu poderia aguentar, mas eu sempre aguentava. Eu fazia manobras para que ela pudesse ficar mais leve; sorria toda vez que o peso era ao ponto de chorar; carregava essa caixa com todo cuidado que eu pudesse ter.

Um dia, carregando minha caixa pra cima e pra baixo, já curvada, com olheiras de quem não dormia e cara de quem não comia, uma amiga perguntou: - Quê isso?
- Minha caixa.
- Que caixa, menina? Não tem nada aí.

E aí me dei conta: eu carregava um peso tão grande e sequer percebia que nada havia. Era em vão. Carreguei nossa caixa sozinha. E o que havia dentro era a enorme vontade daquilo que jamais existiu.

Chega.

Joguei tudo no primeiro lixo que encontrei. Nunca mais carrego um peso que não é meu.


   

domingo, 28 de janeiro de 2018

HOJE EU NÃO VOU BEBER

Hoje eu não vou beber.

A ressaca invadia minha cabeça, fazendo chacoalhar tudo em mim e eu só pensava no fato de não conseguir pensar em nada.
Não conseguia pensar que algo faltava nas noites, essas que insistiam ser longas sem a tua presença.

Ai! A dor na cabeça agora passava para o estômago. E eu não conseguia pensar nas infinitas pontadas que senti na barriga por sentir tanto e você tão pouco. Definitivamente não vou beber hoje.

Não pensei também em como nossos dias eram calorosamente bons e como nossos corpos se reencontravam até de olhos fechados no escuro. O sono pela noite anterior era imenso e certamente hoje não é dia para se beber.
Ouvi de relance Frank Sinatra, Janis Joplin e Amy Winehouse e adivinha? Sequer consegui fazer menção àquela odiosa e desgraçadamente boa playlist que havia feito pra nós.

E olha, bebi tanto que nem consegui lembrar de você com outra. Mas pela manhã vomitei tudo e junto vomitei as lembranças suas que haviam em mim.

E agora, 
analisando, 
já me sinto sóbria pra lembrar de tudo outra vez.

Hoje eu vou beber!

   

domingo, 7 de janeiro de 2018

AQUELA FOTO

Entrei no facebook dele. Analisei bem aquela foto e me perguntei o por quê de me chamar tanta atenção. Nada fiz. Saí de lá. 

Dias depois, voltei a acessar sua página. E assim foi por uns 3 ou 4 dias seguidos, e eu não entendia o que me fazia voltar lá. Não tínhamos qualquer contato, o que eu sabia dele era o pouco que qualquer um poderia saber.

Mas aquela foto... Nossa, como me chamava atenção! Click. Pedi solicitação de amizade. Depois de anos em que havíamos tido o mínimo de contato possível, lá estava eu, adicionando-o sem qualquer pretensão. Mas é que aquela foto... Ah...

Depois dessa solicitação passou basicamente um ano ou mais sem qualquer contato, até nos depararmos com uma série a qual eu assistia e ele já tinha assistido. Trocamos algumas palavras durante alguns meses. Diz ele que havia demonstrado interesse, eu nunca percebi. E se percebi, não levei fé. Não nele, não com todas as pré impressões que havia do mesmo.

Meses se passaram. Aquela série, que viraria minha preferida, havia nos dado uma brecha. E nós haviamos nos dado uma chance. 

Séries, músicas, humor ácido. Tínhamos muito mais em comum que imaginávamos. Deixamos pessoas pelo caminho e nos agarramos ao que éramos um para o outro. Nos percebemos literalmente sintonizados, falávamos sobre coisas iguais num mesmo minuto, comíamos a mesma comida em casas diferentes, ouvíamos a mesma música e claro: pensávamos na mesma pessoa: eu nele e ele em mim. Pois nessa altura do campeonato já havíamos virado um.

Queríamos manter tudo aquilo entre nós, tínhamos medo de mostrar todo o nosso sentimento ao mundo e sermos respondidos com olhos maiores do que deveriam, mas nosso amor era tão imenso que ele próprio se sustentava. E nós não fazíamos questão de manter-lhe aprisionado em nós mesmos, era tanto, que sentíamos nossos corações baterem numa mesma música. E tudo isso havia iniciado por aquela foto...

Vivemos todos os sentimentos do mundo de uma só vez, era como se ainda que pessoas tivessem passado por nossos caminhos, havíamos vivido todo esse tempo esperando um pelo outro. Os dias juntos eram poucos e os minutos longe eternos. Queríamos toda a vida pra nós. E se houvessem outras, que pudéssemos nos encontrar mais rápido que nessa. E viver tudo de novo outra vez.

Mas todo esse amor deu lugar à saudade. E hoje, ao clicar em sua página, me deparei com a mesma foto de anos atrás. Aquela a qual ainda tanto me chama atenção, só que agora com motivos diferentes. Antes era o mistério. E agora, com ele desvendado, a saudade é de tudo que pude descobrir sobre ele e me redescobrir ao lado dele.

Ah, aquela foto... Click. Saí. Só que dessa vez foi muito mais que rede social. 
   

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

CARTA DO PASSADO PARA O FUTURO II

Já deixo claro de antemão que não queria ter que escrever essa carta... não essa. Não pra outra pessoa que não fosse eu mesma.

Não sei como é o relacionamento de vocês, mas o nosso foi desses deliciosos. Muito conturbado, mas repleto de histórias hilárias e gargalhadas estrondosas. E muito, muito amor.

Cê já abriu o armário dele? Eu sei, só tem preto. E não é que ele fica lindo? Mas confesso que ainda prefiro ele de cinza, umas três camisas apenas que existem no meio dessa multidão dark (risos). Fica tranquila, você vai se acostumar ao fato dele não usar cuecas. Shorts serão o máximo de pano que você vai ver nele.

Essa carta é tão incrivelmente diferente da "Carta do passado pro futuro I" que dá vontade de rir só em lê-la. Ele é totalmente o contrário do meu primeiro namorado, a nossa preguiça se encaixava quase que perfeitamente. Nossos fins de semana e dias de folga se resumiam a Netflix na cama e comer besteiras. Nuggets! Nossa, como comíamos isso. E hambúrgueres, salgadinhos e japa. E bom, quanto ao Netflix, confesso que resumia-se apenas a "how i met your mother". Tentamos - juro que tentamos - começar séries novas juntos, assistir diferentes filmes e documentários, mas sempre acabávamos em HIMYM. Sempre. Always.

Ele é muito pé no chão. Muito fechado também. Se ele abrir o coração dele com você, dê atenção. Isso não acontecerá com frequência, mas se acontecer, acredite, você é realmente valiosa. Se ele te incluir em seus sonhos, mete o pé no acelerador e vai. Juntos pensávamos em data do casamento, pois tínhamos certeza de que aconteceria. Os nomes dos filhos escolhemos, e eu duvido que use os mesmos com você. Perdoe a sinceridade, é que era uma coisa muito nossa.

A nossa história é aquele potinho onde você guarda os melhores segredos e morre de ciúmes de mostrar ao mundo, sabe? Quando oficializamos nosso relacionamento para as pessoas, assistíamos juntos as diversas reações de choque em rede social. E ríamos de gargalhar, deitados, pensando no quão louco devia ser para essas pessoas que conheciam - mesmo que pouquíssimo - ambos. Tão diferentes, eles deviam pensar. Tão iguais, nós havíamos descoberto.

Eu e ele éramos café com leite. Eu, agito. Ele, calmaria. Me via fazendo diversas coisas ao mesmo tempo, falando três diferentes assuntos, explicando histórias de pessoas que nem ele mesmo conhecia e ele ali, com aqueles olhos miúdos e um sorriso de canto de boca, me ouvindo atentamente com aquele ar de paciência que só ele tem. No fim das contas eu parava tudo e falava: "ai, tô falando demais, né? Vou parar". E ele ria: "Não, não, fala. Eu tô ouvindo. E gostando", e a gente se beijava. E se amava. E ficava ali, no nosso cantinho, repetindo inúmeras vezes um para o outro: "Quem diria?" - e rindo logo após.

Ah... Esse homem... Ele me virou de ponta a cabeça. Quando começamos tudo, a última coisa que eu queria era alguém, mas ele era cheio de um mistério que eu tinha quase necessidade em desvendar. E nossos gostos, gestos e falas se sintonizavam a cada segundo. Eu quis me prender àquela história. Quis que nossas vidas se interligassem.

Ele dizia que eu mexi com a cabeça dele desde o início, que enfrentava ele de forma que alguém jamais fez e isso deixava ele maluco. Confesso que eu amava isso. Eu via a forma que as pessoas o tratavam e ria desacreditada, ele batia o pé que não, mas todos pisavam em ovos com o mesmo. E comigo ele era tão ele, totalmente desarmado, sem medo de expor opiniões ou sentimentos. Ouvi algumas vezes a frase "nunca contei isso pra ninguém..." da boca dele. E que delícia! Que bom saber que fui importante como ele foi.
Quis tanto que não virássemos passado no presente um do outro, mas as circunstâncias nos fizeram assim. Cada um para um caminho diferente... E como doeu, ainda dói, mas a verdade é que toda noite eu peço pra Deus continuar guardando ele, já que eu não posso mais fazer isso. E bom, agora ele tem você.

Eu sei que o que tivemos jamais teremos com mais ninguém. Sabe aquele único grande amor na vida? Então. Mas a gente se acostuma a viver sem, né? A gente dá lugar a trabalhos, séries, saídas. A gente dá um jeito. A gente tenta. Mas eu sei que no fundo, quando a gente se deita, ainda lembra de como cabíamos perfeitamente enlaçados numa pequena cama de solteiro. E como jamais encontraremos isso em outros corpos. Mas a gente tenta.
A gente tenta.

terça-feira, 9 de agosto de 2016

HE

(nan)
Ele que surgiu como quem ressurge das cinzas.
Pessoa que em nada me acrescentava e hoje tanto me soma.
No pouco.
Nas entrelinhas.
Eu que nunca liguei pro extraordinário, vi nele o ordinário perfeito.
O mar que em mim se torna turbilhão de sentimentos,
Me faz imaginá-lo como um oceano sem fim.
Vi nele pretensão alguma,
Que causou total efeito em mim.
Naqueles olhinhos pequenos, enxerguei uma imensidão em Pessoa.
Em conversas aleatórias, me vi presa.
A sintonia era inimaginável e os gostos se complementavam.
Em casca me fiz dura, enquanto por dentro derretia.
E aos poucos transparecia.
Fugi como diabo foge da Cruz.
Amar não, amor não é pra mim.
Não mais.
Nem um pouquinho, nem um montão.
Em vão.
Todo lugar que olhava,
O via, encarando a mim.

domingo, 26 de julho de 2015

QUERIA EU MORAR NUM ABRAÇO

Estávamos numa festa, olhei-o; percebi que o mesmo já me encarava, virei-me sem graça. Voltei a olhá-lo, ele percebeu e como numa fração de segundos virou-se em minha direção, sorrimos antes que desse tempo de uma segunda virada de cabeça. Aquele momento implorava por uma troca maior que apenas olhares, meu pensamento insistia em querer conhecer mais a fundo aquele que tanto me intrigava, e eu não sabia nem mesmo seu nome.

Essa noite poderia terminar de três diferentes formas:
1. Em arrependimento! Sorrio e saio de fininho;
2. Num beijo e possível troca de números do WhatsApp;
3. Num quarto, longe dali.

Mas jamais terminaria:
1. Num abraço.

Abraço é muito démodé. A graça é conhecer rápido, falar pouco e beijar muito. Raramente uma troca de mensagens no dia seguinte. A graça é sentarmos numa mesa e ao invés de trocarmos histórias e gargalhadas, trocarmos wifi nos iludindo estarmos "juntos". Abraço, quê é isso mesmo?

Beijo é bom, não disse o contrário. É calor, conexão, encontro, intimidade. Mas não há nada mais íntimo que poder dar-se num abraço. Queria eu morar num abraço! Viver dentro do refúgio que é abrigar-se em alguém. Abraço é encontro de alma e espírito, é deparar-se com o coração do outro; é casa pra se morar.

E quando encontramos essa casa, kitnets já não nos satisfazem mais.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

NO ÔNIBUS

Lá estava eu, sentada no banco do ônibus enquanto viajava pra longe com a música que destrinchava meus tímpanos de tão alta. Meus pensamentos se anexavam a batida da música. Cachorro, faculdade - parada rápida pra tocar a bateria imaginária junto ao som de Led Zeppelin -, trabalho, provas, curso de inglês na quarta e o chopp com a galera no sábado.

Em meio a lista flutuante e imaginária que criava, olhava de rabo de olho para quem entrava ou saía do ônibus, não por medo, apenas para saber se algum "vovô" ou "doninha" entrariam e precisariam de meu assento.

Até que entre uma dessas rápidas olhadas, voltei-me rapidamente a pessoa em que avistei. Sorri ao vê-lo sorrindo feliz para um bebê que estava no colo de sua mãe e foi isso que me chamou atenção no mesmo. Ele sentiu o olhar e virou-se pra mim rapidamente, fazendo-me não ter tempo de voltar meu olhar. Então encarei. Sem graça, me virei. Mas continuava incomodada, era como um imã que fazia voltar meus olhos à ele e sutilmente ele voltava os seus à mim.

Comecei a prestar mais atenção nele. De terno, claramente um executivo -o que me fazia perguntar a mim mesma o por quê de estar andando em transporte público tão elegante daquela forma-, com um sorriso belíssimo que transparecia ingenuidade apesar da idade. E que idade! Era mais velho. E isso não me incomodava nem um pouco, pelo contrário, até me instigava.

E fiquei ali, imaginando como seria se ao invés de em pé ele sentasse no banco ao lado e puxasse papo: será que era um cara tão interessante quanto aparentava de longe?

E no meio de todos esses pensamentos: - trriiiiiimm! - alguém tocou a campainha do ônibus. Era ele. Antes de descer, virou-se em minha direção e me encarou como quem dizia "até logo", retribuí com um sorriso.

Até hoje não sei o tom de sua voz, ou seu nome, ou o que faz da vida... Sei apenas aquilo que minha imaginação criou. A única certeza que carrego é que gosta de crianças e que é dono de um sorriso hipnotizante. 

Até prefiro esse desfecho. Afinal, melhor que ele permaneça em minha memória como alguém que em pouco menos de 20 minutos me fez lembrá-lo por anos ao invés de alguém que pude ter durante anos e queria que fosse apenas por 20 minutos.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

QUE SEJA

que seja simples. seja imenso. repleto.
que seja cheiro. afago. carinho.
que seja vírgula. reticências.
que seja história. memória. lembrança.
que seja hoje. ontem. amanhã.
que seja explosivo. comedido. cauteloso.
que seja abraço. beijo. partida.
que seja quente. frio. morno.
que seja foto. carta. ligação.
que seja borboleta. embrulho no estômago.
que seja grito. alegria. tristeza.
que seja tradição. que seja o novo. que seja doce.
e mesmo que não seja eterno,
QUE SEJA!
não é conto.

domingo, 19 de abril de 2015

NADA

Me fitava como se soubesse o que se passava em minha cabeça. Desviava todo o tempo seu olhar. Olhar cheio de perguntas, procurando achar respostas no meu. Eu repetia que nada havia, em vão. Ele continuava a perguntar.

Eu, repleta de sentimentos inquebrantáveis por aquele Ser, precisava manter-me firme quanto sua partida. Eu disse que não me permitiria chorar mais uma vez por alguém que desejasse ir embora assim, afinal, a vida é feita de escolhas. Mas ele insistia, parecia não compreender.

E por fim, disse nada haver - tentando deixar claro não só a ele, mas à mim.

Não há nada.
Nada.
Porém, um nada tão cheio de tudo.